terça-feira, 15 de março de 2011

segunda-feira, 7 de março de 2011

érres e éles (Rs e Ls)

A palavra do dia é "pérola". POrque os chineses dizem pélola, e os japoneses dizem pérora? Porque nas duas línguas, r = l, então, tanto faz. Não entendeu? Vamos lá.

Existe o alfabético fonético internacional (IPA), que contém TODOS os fonemas de TODAS as línguas, organizados por suas propriedades articulatórias. Veja uma tabela do IPA aqui: http://en.wikipedia.org/wiki/File:IPA_chart_2005_png.svg. São todos os sons para compor línguas, mas cada língua tem a sua seleção de fonemas (por exemplo, inglês tem aquele som th, que não tem em português ea gente pena pra aprender).

Vamos para o r e o l. Estão na primeira tabela, na coluna nomeada "alveolar"; o r tá mais no meio (é um trill) e o l tá bem embaixo (é uma lateral). Neste caso, estou considerando o r em "arara". Mas, os dois são alveolares, a posição da língua é a mesma, a diferença é por onde o ar passa (no r, sai pela frente, no l, pelo lado da língua). No português, esses sons são distintivos: "ara"(do verbo arar) e "ala" (do hospital, do desfile da escola de samba, do aeroporto...). duas palavras diferentes em português.

Só que em chinês e em japonês, o recorte de fonemas é diferente do português. O chinês só seleciona o l, e o japonês, só o r. Logo, quando o ouvido chinês ouve um 'r', o cérebro dele não reconhece como fonema, e acaba associando aquele som a um fonema que existe no chinês; logo, pélola. Quando o ouvido japonês ouve l, o cérebro reconhece como r. Daí, pélola.

Essa é uma das razões do sotaque. O seu ouvido foi sendo treinado, ao longo dos anos, para recortar os fonemas certos pra sua língua. Quando você inventa de aprender outra, precisa reeducar o ouvido. É possível, mas tem limite. Por exemplo, quando você aprende inglês. Tem gente que aprende logo de cara que "think" não é fink, sink, ou tink. Mas tem gente que vai falar tink pelo resto da vida. Incompetência, falta de esforço? Não. Pro nosso ouvido brasileiro, th não existe, então o cérebro vai acabar aproximando que algo que existe"f, s, t, d. O alemão, engraçado, por outro lado, o alemão diz "zink". O ouvido alemão ouve th como z. Poisé. ou, poizé? hehe.

Ainda a questão da leitura

A questão da leitura é toda uma outra área. Eu não estudei muito sobre leitura e aquisição de escrita e leitura, então vou dar um palpite bem amplo.

Quando você lê a palavra "oi", pode até pronunciar mentalmente os dois fonemas, o o, depois o i, pra depois entender o que oi significa. Mas, quando você vê o "o", você nÃo pensa que precisa arredondar os lábios e colocar a língua em determinada posição. Essa parte é automática. Da mesma maneira, você só vai pensar que está buscando uma palavra no seu léxico mental se der pau. Exemplo: você conhece a palavra "entrava", certo? Mas olha essa frase: "o navio espanhol entrava... o navio brasileiro no porto de Santos". Hahá, deu pau! Enquanto você lia "entrava", automaticamente voce pensou no verbo entrar, porque é mais comum, recorrente. Mas entrar pede preposição em, e a dita-cuja não aparece, vem logo o artigo "o". O que o seu cérebro faz? Busca outro significado pra entrava, e encontra o verbo entravar, conjugado no presente. Legal, ne? Enquando você lia tudo isso, não ficou pensando se tava pronunciando todos os fonemas.

Talvez o mesmo aconteca com o chinês. Ele provavelmente nÃo fica pensando no significado do kanji (não chama kanji em japonês, né?), talvez acesse, de cara, o significado mais comum daquele kanji e sua pronúncia. Se der pau na leitura, talvez ele recorra a outra pronúnci,a outro significado... ou até um dicionário, hehe!

Mas esse é um mistério da mente humana: como é que a gente pensa? Existem muitos estudos a respeito disso, em psicolingusitica experimental. Será que a gente pensa em palavras? em sons? Em imagens? em mentalês, a língua da mente? Mas isso é assunto pra outro post...

Línguas de Sinais, no plural

Parece que línguas de sinais sempre fazem sucesso. Então deixa eu comentar algumas coisas.

Surdos sempre se comunicaram por gestos, mas só em meados do séc XIX é que o surdo foi reconhecido como gente (até ent!ao, era como se fosse um cachorrinho na casa, ficava pros cantos, comia o que dava, ninguém dava bola...). Foi nessa época que, na França, um pesquisador resolveu aprender a língua que duas irmãs surdas usavam em casa, montou uma escola para surdos, divulgou essa língua. Hoje, essa língua é a língua de sinais francesa. Já no começo do século XX, um brasileiro que esteve na França trouxe essa língua, e junto aos surdos brasileiros, "padronizaram" o que existia por aqui, e passou a ser a língua de sinais brasileira. O mesmo fenômeno aconteceu nos EUA. Ou seja, as línguas de sinais francesa, brasileira e americana são aparentadas. Não são artificiais, embora houvesse um esforço para padronizar aquilo que as comunidades já vinham usando. Historicamente, não sei como se formaram línguas de sinais de outros países, mas muitos países têm línguas de sinais oficiais, e alguns tem até mais que uma. Mas como não houve colonozação de surdos (como houve a colonização da Africa ou da America), não tem país que use língua de sinais de outro país, mas podem haver outras relações de parentesco entre outros países.

Dito isso, vale dizer que não existe uma língua de sinais internacional, como hoje é o ingl^s, e outrora, foi o francês. Mas os surdos conseguem se comunicar "internacionalment", por assim dizer. Quando você aprende língua de sinais, você aprende a dominar o espaço de uma maneira diferente; em outras palavras, você acaba melhorando a sua capacidade em fazer mímica! Então, surdos de países diferentes conseguem se comunicar. Brasileiros e franceses, por exemplo, conseguem manter um certo diálogo, nada muito filosófico. Já entre língua de sinais brasileira e japonesa a distância é bem maior, então a comunicação é mais restrita, limitada, recaindo mais sobre a mímica do que as línguas em si. No fundo, não se tem tanta necessidade de uma língua internacional. Por enquanto.

Todo mundo faz essa pergunta: mas língua de sinais não é universal? Os surdos costumam responder dizendo: "se você todos falam, porque não falam todos a mesma língua?". Justo.

Sim, uma pessoa pode saber duas línguas de sinais, basta se expor a ela. Eu me lembro de ter conhecido um sujeito em um congresso que falava português, inglês, e línguas de sinais brasileira e americana (ele não era surdo, mas era intérprete). Dá sim.

Dá pra ser fluente em língua de sinais quando se é ouvinte (não surdo)? Sim. Principalmente se você for filho de surdo. Como seus pais vão falar com você em língua de sinais desde que você nascer, você vai aprender LSB como língua materna. E depois de "velho", d'á pra aprender? olha, dá, dá pra ser fluente, mas não dá pra parecer nativo. Sempre vai estar na cara que você não é surdo, ou pelo menos não teve LSB como l'íngua materna. (PS: estou preparando um post falando de língua materna zero, aguardem!)

domingo, 6 de março de 2011

E surdo escreve?

Essa é uma questão muito complicada. Os surdos, que vivem em comunidades surdas, usam a língua de sinais pra se comunicar. Essa língua não é baseada no português, embora empreste palavras dessa última. Além da língua de sinais, muitos surdos acabam "oralizados": sao treinados para ler lábios e produzir palavras em português, mas costuma ser bem rudimentar, ruim de entender, sem contar que a sintaxe passa longe do português, é mais parecido com a ordem de sinalização da língua de sinais, mas não é bem isso. É deficiente, mas serve pra se comunicar.

E surdos vão pra escola, e aprendem português como segunda língua. Fica tão bom como se você quisesse aprender russo por conta própria, sem uma fitinha cassete pra te dizer como pronunciar as letras russas. Tá, você até consegue aprender russo, produzir uns textos, tentar falar mas... não vai ser exatamente russo. É mais ou menos assim que o surdo aprende português.

Com esse português capenga, o surdo precisa ir pra escola, conversar com o dentista, ler jornal e tudo mais. fica difícil né? Os surdos escrevem em português, mas eu já vi redação de surdo pra vestibular. Dá pra entender, mas... não dá pra competir, né? Existiu uma época aí uma tentativa de propor que a redação do surdo fosse corrigida como redação de estrangeiro, mas acho que não pegou. bom, um etrangeiro em terras próprias, mas estrangeiro.

E surdo tem celular? Sim! E como!! Santas mensagens!! Eles gastam muitos reais mandando mensagem, marcando encontro, fazendo tudo pelas mensagens do celular. Claro, usando o português como dá, mas escrevem. E são salvos por essas mensagens, com certeza!

Mas uma amiga minha, professora de uma universidade da Bahia resolveu ir além: inventar uma escrita para surdos. Não é uma questão de inventar a escrita, mas sugerir uma maneira de traduzir a riqueza de uma língua em 4 dimensões para uma folha da papel, para que os surdos possam guardar suas memórias e sua cultura, estudar e produzir sem recorrer a língua estrangeira (português).

Antes de entrar em detalhes, deixa eu explicar uma coisa. Existem alguns sistemas de escrita, dentre eles:

- alfabético: todo mundo conhece o alfabético: cada itens representa um som e assim formam-se sílabas, e depois palavras, como em português, inglês...
- silábico: a menor unidade é a sílaba, como o japonês. Em português, primeiro você aprende a, e, i, o ,u, depois, b, aí faz b + a= bá e assim por diante. Em japonês, a menor unidade é a própria sílaba bá, então você aprende o bá, depois o bê, depois o bi e assim por diante.
- logográfico: é a que usa ideogramas, como o chinês. cada caracter simboliza uma palavra inteira, um conceito inteiro. neste caso, demora muito mais pra aprender, porque você tem que aprender cada ideograma, decorar como se fala (porque o ideograma em si não diz como ele é pronunciado), decorar o significado, as variantes, sei lá. Eu acho um sistema lindo, mas inventar um sistema de pelo menos 5 mil caracteres pra uma língua de sinais é uma tarefa de gerações.
O último sistema é o trácico, que é usado pelo coreano: cada caracter é divido em 3 ou 4 partes, e cada parte indica um traço do som, e só dá pra falar aquele som quando você combina os 3 traços.

É esse último sistema que essa minha amiga propôs: levar para o papel caracteres compostos de pequenas informacoes (desenháveis à mão, claro, etambém a máquina) que indiquem em que posição a mão deve ficar para realizar determinado sinal, qual o movimento, e coisas nesse nível. Muito mais simples que escrita logográfica. Não me lembro agora mas o número de "desenhinhos" que compõem esse sistema, para escrever os caracteres gira em torno de 300. Bom, dá pra aprender 300, né? Claro, é mais que umas 30 letras de sistemas alfabéticos, mas bem menos que 5 mil.

Pois bem, o sistema é genial! Não sei quantas cabeças andaram envolvidas nesse projeto, mas foi desenvolvido bastante rapidamente, muito competentemente. À primeira vista, parece impossível de ler. mas depois que você aprende como o caracter funciona, é mágico!

Eu ja tinha visto sistemas de escritas de língua de sinais, como o Sign Writing (http://pt.wikipedia.org/wiki/SignWriting), que é bem legal, mas rudimentar. Olhar para o SignWriting é como olhar para uma foto estilizada de uma pessoa sinalizando. Não dá pra saber exatamente como aquele fotografia evolui em termos de sinal. No SignWriting, você precisa CONHECER o sinal pra conseguir realmente sinalizar o que tá grafado, mas nesse sistema da minha amiga, chamado SEL (infelizmente, não achei nada na internet, acho que eles ainda não publicaram muita coisa), a idéia é que o surdo consiga sinalizar mesmo que ele não conheça o sinal. Por exemplo, se eu escrevo que esse sistema é adami pra caramba, você, leu leitor, consegue ler a palavra "adami", embora não saiba o que ela significa (se você não sabe, o problema não é do sistema de escrita, é seu, entende?).

Claro, ainda há muito o que se fazer, existem particularidades das línguas de sinais que precisam ser pensados, esse sistema precisa "cair na boca (ou nas mãos?) do povo" surdo, precisa ser aceito, oficializado... Mas essa não é a questão. Se a humanidade levou séculos pra desenvolver a escrita, os surdos terão mais sorte em ter um sistema simples, aprendível e escrevível em muito menos tempo!! E, claro, vai demorar um pouco mais pra esse sistema poder ser escrito com um mísero teclado de 12 posições de um celular, mas até lá, vai de português capenga mesmo...

quarta-feira, 2 de março de 2011

Hindi e pronomes de tratamento

A pergunta de hoje é sobre hindi. Primeiramente, hindi tem inúmeros pronomes de tratamento, o que parece tornar a tarefa de aprender hindi impossível. Não é bem assim. Primeiramente, é preciso lembrar que cada língua tem uma carga de coisas que parecem naturais para os nativos e absurdas para estrangeiros. Por exemplo, gêneros em português. Para nós, é simples e óbvio que cada substantivo tenha um gênero, feminino ou masculino, e raramente a gente erra (as pessoas erram com palavras como açúcar e alface, e algumas outras palavras como planeta mudaram de gênero - sim, se dizia "a planeta" e agora se diz "o planeta"; mas, no geral, os nativos não erram gênero). Quando um falante de espanhol vai aprender português, ele diz: legal, ess língua também tem gênero, mas algumas palavras diferem da minha língua, como sorriso, árvore, nariz ou sangue. Legal, dá pra aprender. Quando você pega um falante de alemão, ele vai encontrar muitos opostos entre alemão e portugues, mas vai achar engraçado que não exista gênero neutro em português. Aliás, o neutro do alemão não significa "sem sexo", "assexuado" , ou "genérico". Por exemplo, livro em alemão é neutro, e bolsa é feminino, mas ambos são objetos inanimados, e nem por isso bolsa é neutro.

Agora, se um falante de inglês vai aprender português, ele pode achar um completo absurdo existir gênero! Primeiramente, ele não vê motivo nenhum em dizer o gênero no artigo; segundo, porque diabos mesa é feminino? Por um acaso ela usa saia, batom? Mas gênero não é sexo, veja bem. Portanto, para um falante de inglês falar português, a tarefa vai ser mais complexa do que pro alemão ou pro espanhol aprender portugues.

Dito isso, dá pra aprender português? Dá. Mas vai aparecer o sotaque, vai aparecer, na gramárica, na frase, alguma coisa que aponte que o sujeito é estrangeiro. Eu trabalhei com um rapaz holandês que falava português muito bem, mas às vezes ele errava nos gêneros e nas preposições. (aliás, preosição é outra coisa bem difícil..). PS: holandês é bem parecido com alemão.

Outro exemplo são as preposições: português tem 17, mas tem línguas que têm mais preposições, menos , ou nenhuma. Quando não tem preposição, muitas línguas acabam optando por outras maneiras de se apresentar essas relacaoes mantidas pelas preposicoes como, por exemplo, usando casos. O latim te 6 casos, o alemao tem 4, e tem uma língua escandinava (não me lembro qual) que tem 14 casos. pra efeito de comparação, português não tem caso nenhum.

A beleza de se aprender outra língua é aceitar que existem maneiras diferentes de se expressar a mesma coisa. Quando você entende que pode ser diferente do que você sabe, o aprendizado fica mais fácil.

Mas, voltando ao hindi. e os pronomes de tratamento? Bomm, tem que arranjar um jeito de aprender. Provavelmente, memorizando. Provavelmente , o estrangeiro vai cometer erro. provavelmente, os erros vão ser mais complicados do que errar artigo; quando você erra artigo, fica engraçado (o cadeira, a carro, os criancas); quando você erra pronome de tratamento, você pode acabar chamando o chefe de meu chapa. Pega mal, mas dá pra aprender. Demora, mas dá pra aprender.

TEm que se ter em mente que quando você aprende segunda língua, nunca vai ser tão boa quanto língua materna. E que nenhuma língua materna é difícil!! O cérebro humano é preparado para receber qualquer língua, basta estar exposto a ela. uma vez exposto, a criança aprende a língua sem dificuldade. O fato de certas crianças falarem com um ano e meio, e outras demorarem 3 anos pra falar coisas simples como "o cachorro comeu" não tem nada a ver com a língua materna. Criancas falam cedo/tarde em português, em alemão, japonês ou hindi!! Em termos de aquisição, o que conta é a exposição, o estímulo, e até o interesse da criança por falar (o meu filho não tem muito interesse em falar nao....)

um outro exemplo: japonês tem 7 maneiras de se dizer "eu". Claro, tem os básicos, tipo watashi, e uns muitos específicos, como o "eu" que só o imperador pode usar. Difícil aprender isso? não pra ciranca japonesa. Talvez um pouco mais difícil pro Roberto Kovalik, brasileiro, correspondente da Globo no Japão.

Agora, quando você traduz pra outra língua, complica. Vou dar o exemplo besta de sempre. Saudade, em português, é um substantivo. Em inglês, além de ser verbo, significa tsambém errar um alvo, perder um evento (um ônibus, uma festa, uma aula). Dizem que não dá pra traduzir saudade pra outras línguas, mas não ébem isso. dá pra traduzir sim, mas não tem um substantivo que traduza, é preciso usar outra coisa, um verbo, ou mesmo mais palavras. O mesmo com o hindi: quando você pega aquela lista de pronomes de tratamento, e traduz pro inglês, talvez tudo vire "you". Mas, ao pé da letra, talvez você enxergue coisas como "o senhor meu superior", "o senhor mais velho que eu" , "o senhor mais experiente nessa matéria", "a senhra que tem filhos", "a senhora que é casada mas nao tem filhos". Sim, inventei todos esses casos, mas tou só mostrando como é possível pensar em diferentes maneiras de se direcionar à outras pessoas sem ser usando "you". e E lembrando que português também tem pronomes de tratamento: "você" (que originou-se em vossa mercê), "o senhor/a", vossa senhoria, e todos aqueles pronomes que a gente aprende na escola meritíssimo, e outros assim, que servem pra falar com o juiz, o presidente, o papa. Acho que a diferença entre hindi e português é que a gente é pouco exposto aos casos em que se usa pronomes de tratamento diferenciados (você pode ter algumas oportunidades de falar com um juiz, mas com o presidente e o papa....), e talvez a gama de pronomes de tratamento do hindi contemplem diferenças mais comuns, como hierarquia, gênero, estado civil, e, portanto, sejam mais visíveis.

bom, depois desse longo post, eu até tenho outras idéias de coisas pra falar que caberiam aqui, mas falarei como uma equencia pra este post. Em breve. Aguardem!