quarta-feira, 2 de março de 2011

Hindi e pronomes de tratamento

A pergunta de hoje é sobre hindi. Primeiramente, hindi tem inúmeros pronomes de tratamento, o que parece tornar a tarefa de aprender hindi impossível. Não é bem assim. Primeiramente, é preciso lembrar que cada língua tem uma carga de coisas que parecem naturais para os nativos e absurdas para estrangeiros. Por exemplo, gêneros em português. Para nós, é simples e óbvio que cada substantivo tenha um gênero, feminino ou masculino, e raramente a gente erra (as pessoas erram com palavras como açúcar e alface, e algumas outras palavras como planeta mudaram de gênero - sim, se dizia "a planeta" e agora se diz "o planeta"; mas, no geral, os nativos não erram gênero). Quando um falante de espanhol vai aprender português, ele diz: legal, ess língua também tem gênero, mas algumas palavras diferem da minha língua, como sorriso, árvore, nariz ou sangue. Legal, dá pra aprender. Quando você pega um falante de alemão, ele vai encontrar muitos opostos entre alemão e portugues, mas vai achar engraçado que não exista gênero neutro em português. Aliás, o neutro do alemão não significa "sem sexo", "assexuado" , ou "genérico". Por exemplo, livro em alemão é neutro, e bolsa é feminino, mas ambos são objetos inanimados, e nem por isso bolsa é neutro.

Agora, se um falante de inglês vai aprender português, ele pode achar um completo absurdo existir gênero! Primeiramente, ele não vê motivo nenhum em dizer o gênero no artigo; segundo, porque diabos mesa é feminino? Por um acaso ela usa saia, batom? Mas gênero não é sexo, veja bem. Portanto, para um falante de inglês falar português, a tarefa vai ser mais complexa do que pro alemão ou pro espanhol aprender portugues.

Dito isso, dá pra aprender português? Dá. Mas vai aparecer o sotaque, vai aparecer, na gramárica, na frase, alguma coisa que aponte que o sujeito é estrangeiro. Eu trabalhei com um rapaz holandês que falava português muito bem, mas às vezes ele errava nos gêneros e nas preposições. (aliás, preosição é outra coisa bem difícil..). PS: holandês é bem parecido com alemão.

Outro exemplo são as preposições: português tem 17, mas tem línguas que têm mais preposições, menos , ou nenhuma. Quando não tem preposição, muitas línguas acabam optando por outras maneiras de se apresentar essas relacaoes mantidas pelas preposicoes como, por exemplo, usando casos. O latim te 6 casos, o alemao tem 4, e tem uma língua escandinava (não me lembro qual) que tem 14 casos. pra efeito de comparação, português não tem caso nenhum.

A beleza de se aprender outra língua é aceitar que existem maneiras diferentes de se expressar a mesma coisa. Quando você entende que pode ser diferente do que você sabe, o aprendizado fica mais fácil.

Mas, voltando ao hindi. e os pronomes de tratamento? Bomm, tem que arranjar um jeito de aprender. Provavelmente, memorizando. Provavelmente , o estrangeiro vai cometer erro. provavelmente, os erros vão ser mais complicados do que errar artigo; quando você erra artigo, fica engraçado (o cadeira, a carro, os criancas); quando você erra pronome de tratamento, você pode acabar chamando o chefe de meu chapa. Pega mal, mas dá pra aprender. Demora, mas dá pra aprender.

TEm que se ter em mente que quando você aprende segunda língua, nunca vai ser tão boa quanto língua materna. E que nenhuma língua materna é difícil!! O cérebro humano é preparado para receber qualquer língua, basta estar exposto a ela. uma vez exposto, a criança aprende a língua sem dificuldade. O fato de certas crianças falarem com um ano e meio, e outras demorarem 3 anos pra falar coisas simples como "o cachorro comeu" não tem nada a ver com a língua materna. Criancas falam cedo/tarde em português, em alemão, japonês ou hindi!! Em termos de aquisição, o que conta é a exposição, o estímulo, e até o interesse da criança por falar (o meu filho não tem muito interesse em falar nao....)

um outro exemplo: japonês tem 7 maneiras de se dizer "eu". Claro, tem os básicos, tipo watashi, e uns muitos específicos, como o "eu" que só o imperador pode usar. Difícil aprender isso? não pra ciranca japonesa. Talvez um pouco mais difícil pro Roberto Kovalik, brasileiro, correspondente da Globo no Japão.

Agora, quando você traduz pra outra língua, complica. Vou dar o exemplo besta de sempre. Saudade, em português, é um substantivo. Em inglês, além de ser verbo, significa tsambém errar um alvo, perder um evento (um ônibus, uma festa, uma aula). Dizem que não dá pra traduzir saudade pra outras línguas, mas não ébem isso. dá pra traduzir sim, mas não tem um substantivo que traduza, é preciso usar outra coisa, um verbo, ou mesmo mais palavras. O mesmo com o hindi: quando você pega aquela lista de pronomes de tratamento, e traduz pro inglês, talvez tudo vire "you". Mas, ao pé da letra, talvez você enxergue coisas como "o senhor meu superior", "o senhor mais velho que eu" , "o senhor mais experiente nessa matéria", "a senhra que tem filhos", "a senhora que é casada mas nao tem filhos". Sim, inventei todos esses casos, mas tou só mostrando como é possível pensar em diferentes maneiras de se direcionar à outras pessoas sem ser usando "you". e E lembrando que português também tem pronomes de tratamento: "você" (que originou-se em vossa mercê), "o senhor/a", vossa senhoria, e todos aqueles pronomes que a gente aprende na escola meritíssimo, e outros assim, que servem pra falar com o juiz, o presidente, o papa. Acho que a diferença entre hindi e português é que a gente é pouco exposto aos casos em que se usa pronomes de tratamento diferenciados (você pode ter algumas oportunidades de falar com um juiz, mas com o presidente e o papa....), e talvez a gama de pronomes de tratamento do hindi contemplem diferenças mais comuns, como hierarquia, gênero, estado civil, e, portanto, sejam mais visíveis.

bom, depois desse longo post, eu até tenho outras idéias de coisas pra falar que caberiam aqui, mas falarei como uma equencia pra este post. Em breve. Aguardem!

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