E surdos vão pra escola, e aprendem português como segunda língua. Fica tão bom como se você quisesse aprender russo por conta própria, sem uma fitinha cassete pra te dizer como pronunciar as letras russas. Tá, você até consegue aprender russo, produzir uns textos, tentar falar mas... não vai ser exatamente russo. É mais ou menos assim que o surdo aprende português.
Com esse português capenga, o surdo precisa ir pra escola, conversar com o dentista, ler jornal e tudo mais. fica difícil né? Os surdos escrevem em português, mas eu já vi redação de surdo pra vestibular. Dá pra entender, mas... não dá pra competir, né? Existiu uma época aí uma tentativa de propor que a redação do surdo fosse corrigida como redação de estrangeiro, mas acho que não pegou. bom, um etrangeiro em terras próprias, mas estrangeiro.
E surdo tem celular? Sim! E como!! Santas mensagens!! Eles gastam muitos reais mandando mensagem, marcando encontro, fazendo tudo pelas mensagens do celular. Claro, usando o português como dá, mas escrevem. E são salvos por essas mensagens, com certeza!
Mas uma amiga minha, professora de uma universidade da Bahia resolveu ir além: inventar uma escrita para surdos. Não é uma questão de inventar a escrita, mas sugerir uma maneira de traduzir a riqueza de uma língua em 4 dimensões para uma folha da papel, para que os surdos possam guardar suas memórias e sua cultura, estudar e produzir sem recorrer a língua estrangeira (português).
Antes de entrar em detalhes, deixa eu explicar uma coisa. Existem alguns sistemas de escrita, dentre eles:
- alfabético: todo mundo conhece o alfabético: cada itens representa um som e assim formam-se sílabas, e depois palavras, como em português, inglês...
- silábico: a menor unidade é a sílaba, como o japonês. Em português, primeiro você aprende a, e, i, o ,u, depois, b, aí faz b + a= bá e assim por diante. Em japonês, a menor unidade é a própria sílaba bá, então você aprende o bá, depois o bê, depois o bi e assim por diante.
- logográfico: é a que usa ideogramas, como o chinês. cada caracter simboliza uma palavra inteira, um conceito inteiro. neste caso, demora muito mais pra aprender, porque você tem que aprender cada ideograma, decorar como se fala (porque o ideograma em si não diz como ele é pronunciado), decorar o significado, as variantes, sei lá. Eu acho um sistema lindo, mas inventar um sistema de pelo menos 5 mil caracteres pra uma língua de sinais é uma tarefa de gerações.
O último sistema é o trácico, que é usado pelo coreano: cada caracter é divido em 3 ou 4 partes, e cada parte indica um traço do som, e só dá pra falar aquele som quando você combina os 3 traços.
É esse último sistema que essa minha amiga propôs: levar para o papel caracteres compostos de pequenas informacoes (desenháveis à mão, claro, etambém a máquina) que indiquem em que posição a mão deve ficar para realizar determinado sinal, qual o movimento, e coisas nesse nível. Muito mais simples que escrita logográfica. Não me lembro agora mas o número de "desenhinhos" que compõem esse sistema, para escrever os caracteres gira em torno de 300. Bom, dá pra aprender 300, né? Claro, é mais que umas 30 letras de sistemas alfabéticos, mas bem menos que 5 mil.
Pois bem, o sistema é genial! Não sei quantas cabeças andaram envolvidas nesse projeto, mas foi desenvolvido bastante rapidamente, muito competentemente. À primeira vista, parece impossível de ler. mas depois que você aprende como o caracter funciona, é mágico!
Eu ja tinha visto sistemas de escritas de língua de sinais, como o Sign Writing (http://pt.wikipedia.org/wiki/SignWriting), que é bem legal, mas rudimentar. Olhar para o SignWriting é como olhar para uma foto estilizada de uma pessoa sinalizando. Não dá pra saber exatamente como aquele fotografia evolui em termos de sinal. No SignWriting, você precisa CONHECER o sinal pra conseguir realmente sinalizar o que tá grafado, mas nesse sistema da minha amiga, chamado SEL (infelizmente, não achei nada na internet, acho que eles ainda não publicaram muita coisa), a idéia é que o surdo consiga sinalizar mesmo que ele não conheça o sinal. Por exemplo, se eu escrevo que esse sistema é adami pra caramba, você, leu leitor, consegue ler a palavra "adami", embora não saiba o que ela significa (se você não sabe, o problema não é do sistema de escrita, é seu, entende?).
Claro, ainda há muito o que se fazer, existem particularidades das línguas de sinais que precisam ser pensados, esse sistema precisa "cair na boca (ou nas mãos?) do povo" surdo, precisa ser aceito, oficializado... Mas essa não é a questão. Se a humanidade levou séculos pra desenvolver a escrita, os surdos terão mais sorte em ter um sistema simples, aprendível e escrevível em muito menos tempo!! E, claro, vai demorar um pouco mais pra esse sistema poder ser escrito com um mísero teclado de 12 posições de um celular, mas até lá, vai de português capenga mesmo...
Ai, tinha escrito um comentário enorme e perdi. Enfim, AMEI o post! Quero saber mais sobre o SEL, muito interessante. Nem sabia que existe gente trabalhando em coisas do gênero, parece tão ficção. Muito legal.
ResponderExcluirPergunta polêmica: e o contrário, quem não é surdo pode chegar a ser fluente em ling. de sinais?
pergunta 2: existe uma língua de sinais mais internacional, como o inglês é atualmente?
pergunta 3: conhece brasileiro que fala libras e outra linguagem de sinais como 2a. língua?
pergunta 4: quem aprende os caracteres chineses pensa diferente na hora de ler? porque nós literalmente lemos os sons mesmo que sem falar, mas eu fico pensando se os chineses não associam diretamente ao significado sem passar pela identificação de como aquilo soa. E isso é tão legal! É leitura dinâmica de fábrica! Será que é assim mesmo?
Ufa, chega de perguntas. Beijo!
Tati, minha super leitora! Suas questões geraram dois novos posts. Acompanhe!
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