As línguas indígenas são muito interessantes porque ensinam que tudo pode ser pensado de maneira diferente. Nao sou expert em línguas indígenas, estudei um pouco na graduação e um pouco no mestrado, mas as aulas de línguas indígenas me marcaram.
Por exemplo, os números. Há varios sistemas de bases diferentes. Observe.
Vejamos em português primeiro. Nosso sistema é base dez. Isso significa que, via de regra, temos palavras diferentes para cada um dos numeros de 1 a 10. de onze a vinte, alguns dos números são sobreposições dos números de 1 a 10, por exemplo, 16 (dez + seis) ou 17 (dez + sete). Existe também o sistema de base 20, cuja lógica é a mesma, mas são palavras diferentes do 1 ao 20. E em algumas línguas, as palavras significam uma munheca inteira (5), duas munhecas (10), uma munheca e um pé (15). Olhando assim no geral, é basicamente isso. Seu cérebro de base dez e cultura ocidental entende quando eu falo de sistema de base 20 (porque 20 é multiplo de 10). Mas olha só: sistema de base 1.
Nao vou citar línguas específicas porque senão o post fica imenso. Mas existem línguas de base 1, de base 2, de base 3... No sistema de base 1, quase nada é visto pluralmente. Se uma mulher vai cozinhar ovos para os 4 filhos, ela pensa que vai cozinhar um ovo para cada filho, e nao 4 ovos. Deu nó na cabeça? Vou dar outro exemplo. Se um homem vai construir uma casa e precisa de 8 estacas, ele vai pensar que precisa de uma estaca para a o canto da praia, uma estaca pro canto da mata, uma estaca pro canto da arena... ou seja, vai pensar separadamente em cada estaca. Se voce insistir na pergunta, pra ver se ele responde alguma coisa que signifique oito, ele vai dizer "várias, vou precisar de várias estacas". O nó ainda tá na cabeça? Vou explicar o sistema de base 2 que melhora.
No sistema de base 2, a mãe vai cozinhar 2 pares de ovos, para dois pares de filhos. O homem vai precisar de vários pares de estacas pra construir a casa. Algumas traduções literais dessas línguas são "as patas da ema"(número 2), "as patas de duas emas" (número 4), "com companheiro", "sem companheiro"; por exemplo, é possível encontrar a expressão "as patas de duas emas + sem companheiro" significando 5. Em outras línguas, os termos ímpares são reduplicações de termos pares. Se o número 4 é tapisar, o número 5 é tapisar-pisar.
Isto é só uma pequena amostra do que pode acontecer com línguas que não têm raizes indo-européias, ou seja, que fogem ao círculo línguas-latinas/anglo-saxonicas/eslavas. So maneiras absolutamente diferentes de se ver o mundo, e absolutamente plausíveis, e aceitáveis, não tem nada de esquisito nisso.~
Eu acho fantástico!
Pra quem se interessar, tirei essas informacões de Os diferentes termos numéricos das línguas indígenas do Brasil, por Diana Green, in "Idéias Matemáticas de Povos Culturalmente Distintos" (org. Mariana Kawall Leal Ferreira), 2002.
Tem perguntas sobre outros temas? Pergunta à linguista!
Porque os chineses dizem macalão (para macarrão) e os japoneses dizem itariano (para italiano) (ok!)? Como é que traduz 'ever' (ok!)? Porque em hindi há tantos pronomes de tratamento (ok!)? Porque as crianças dizem "eu sabo" e "eu fazo" Porque minha avó japonesa fala com sotaque (ok, respondida!)? POrque os argentinos dizem que não me entendem (ok!)? Se você já se fez alguma dessas perguntas, ou outras relacionadas, está no lugar certo! Pergunte para a linguista, usando o campo para comentários!
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