domingo, 29 de janeiro de 2012

Agora moderando comentários

Queridos amigos e leitores,

Descobri que meu moderador de comentários deste blog nao estava ativado. Resultado: só AGORA vi vários comentários bacanas deixados há semanas, meses, sei lá. Mil desculpas! Reativei a moderação, menos por medo do que possam escrever, mas mais pra eu ter certeza de que li TODOS eles.

Desculpem!

Tem perguntas sobre outros temas? Pergunta à linguista!

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Negação em português

Meu mestrado foi sobre negação na língua de sinais brasileira. Depois de três anos de pesquisa, cheguei à conclusão de que não eram as palavras em si que exerciam a função de negação nesta língua, mas a expressão facial empregada. 

Explico: ao ouvintes, a língua de sinais parece se resumir apenas ao gestos, que seriam a coisa mais próxima do conceito de 'palavra' das línguas faladas. Na maioria das línguas faladas, são palavras que fazem uma sentença ficar negativa, palavras chamadas n-words, como não, nada, ninguém, nunca, e outras palavras da mesma linha. Mas há línguas faladas em que a negação é expressa apenas pela mudança de tom numa vogal, ou o acrescimo de uma letra, fonema ou morfema à forma verbal (em outras palavras, não é uma palavra inteira, mas um pedaço de alguma coisa que você gruda em alguma palavra e - voilà! - frase negativa).

A língua de sinais brasileira se assemelha à essas línguas faladas que se encaixam na categoria da exceção, ou seja, a negação é basicamente marcada por outra coisa que não uma 'palavra',  ou no caso da língua de sinais, um gesto manual específico. NA minha pesquisa, inicialmente, mostrei que existia uma expressão facial negativa (na verdade, duas) que sempre acompanhavam a sentença negativa, mas o avanço da pesquisa mostrou que:

a. sem expressão facial negativa, a sentença é esquisita, ou agramatical, ou não-negativa
b. o gesto manual é DISPENSÁVEL na sentença negativa, enquanto a expressão não-manual é INDISPENSÁVEL.

É por causa deste ponto b que eu vim escrever este post. Meu filho não fala língua de sinais, não tem contato com comunidade surda, é monolíngue (em progresso ainda). Mas é impressionante notar que ele faz frases negativas sem usar palavras negativas, apenas mudando a entonação ou fazendo uma caretinha, ou melhor, uma expressão facial, ou balançando a cabeça de um lado pro outro. Interessante notar que, na falta da perfeita manipulacão de palavras mais complexas (como n-words, conjunções, dêiticos, preposições, e essas coisas complicadas), ele arranjou um outro mecanismo para dizer que não gosta, não quer. e esse mecanismo não é um total e completo absurdo inventado por uma mente ingênua, mas provavelmente um mecanismo existe no aparato linguistico que é pouco usado nas línguas faladas, mas muito mais usado nas línguas de sinais (na minha pesquisa, encontrei outros estudos com dados interessantes sobre negação não manual em outras línguas de sinais de outros países). 

Em termos de aquisição, ele vai aprender a maneira correta de negar uma sentença, no tempo dele. Assim como as crianças aprendem e param de dizer "eu fazi" e essas coisas, ele vai perceber que não se nega em português usando só entoação ou balançando a cabeça, é precise DIZER algo negativo com palavras. Ele vai aprender. por enquanto, eu curto porque acho bonitinho... :-)